Terça-feira, Maio 01, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- O Adobe





A transformação da terra em material de construção é já milenar e as técnicas foram-se gradualmente expandindo pelos mais variados pontos do globo, segundo a maior parte dos estudos, a partir da zona a que hoje denominamos Médio Oriente. Uma das mais básicas e antigas formas de processamento da terra para a edificação é a manufactura de tijolos de adobe. Contrariamente ao chamado tijolo burro e aos tijolos cerâmicos de concepção industrial, o tijolo de adobe é seco naturalmente dispensando o uso de fornos. Os materiais necessários à sua produção geralmente estão ao alcance de qualquer um, sendo normalmente extraídos no local de construção, terra/argila, areia. água e palha, surge também referida a utilização de esterco de vaca, cavalo ou burro. Após a obtenção da mistura ideal (cerca de 60/70 % de areia e 30/40% de argila) à qual é acrescentada água para formar o barro que irá secar, é também adicionada a palha que melhorará a resistência à tracção.
Algumas fontes indicam que o barro mais indicado para esta utilização deve ser obtido a cerca de 40/50 cm de profundidade, por à partida estar mais limpo de detritos que as primeiras camadas. Estes elementos são batidos até estarem bem misturados e depois enformados nas adobeiras, formas rectangulares, na sua maioria de madeira onde o tijolo vai ganhar a sua forma até secar. A secagem ao sol dura cerca de oito dias, tendo que ser voltados dois dias depois de enformados. As dimensões médias encontradas no nosso território para os tijolos de adobe são cerca de 40 cm de comprimento por 20 cm de altura e igual largura. Para além das formas simples, o rudimentar rectângulo de madeira, ainda existiam algumas que permitiam a execução de múltiplos tijolos simultaneamente, assim como moldes específicos ou de meio-tijolo. A aplicação desta solução na nossa arquitectura popular, ainda que reduzida, é mais verificada no sul do país, com maior expressão nos distritos de Setúbal e Faro.
Dadas as características do material a sua utilização predominante é na edificação de paredes interiores, onde está mais resguardado dos agentes erosivos. É também aconselhável que a construção de adobe assente sobre alvenaria de pedra com cerca de 60 cm de altura para evitar as humidades ascendentes do solo.
Há algumas décadas existiam ainda pessoas dedicadas ao ofício que se instalavam no local da obra e efectuavam os tijolos onde viriam a ser aplicados. A selecção da matéria-prima depende da disponibilidade do local, mas testemunhos afirmam que os barros brancos permitem a execução de tijolos mais robustos e que ligam melhor, ao passo que os barros mais avermelhados têm tendência, depois da secagem, para ser mais friáveis. A ligação entre tijolos de adobe era muitas vezes garantida por argamassa de barro, que além de garantir um trabalho superior ao cimento ou mesmo argamassa de cal, neste caso, evitava situações de indisponibilidade de material. Pois há várias décadas o cimento ainda não se tinha difundido e nas zonas serranas mais isoladas a cal também não assumiu a importância para a construção que se verificou em grande parte da região sul do país.
Esta solução além de económica face a outras, pois aproveita os materiais disponíveis na área da construção tem também um menor impacte ambiental, por não exigir a queima de materiais combustíveis que os outros tijolos necessitam, não libertando desta forma gases para a atmosfera, reduzindo também o recurso a determinados meios de transporte e máquinas geralmente de consumo elevado e emissoras de grandes quantidades de co2. A construção em terra do ponto de vista térmico é também bastante eficaz filtrando melhor que as alvenarias de betão e tijolo as condições adversas do exterior.
A sobrevivência desta técnica na arquitectura popular até ao século XX é indicador da sua validade enquanto solução construtiva motivada por vezes pela dificuldade de obtenção ou custo de outros materiais de construção ou por razões de economia. A inovação técnica e tecnológica ditou o quase abandono da utilização do adobe, pois os materiais de produção industrial rapidamente se difundiram, ajudados por preços competitivos, rapidez na construção e pelas constantes melhorias das vias de comunicação que garantiram transportes mais regulares e baratos. O entusiasmo pela inovação transformou os hábitos construtivos e nem sempre trouxe melhorias face aos métodos empregues durante séculos. 
Actualmente há um renovado interesse por parte de arquitectos e investigadores. A busca de casas que sejam mais sustentáveis do ponto de vista ecológico encontrou também um determinado tipo de cliente, havendo quem procure casa nova onde sejam empregues este tipo de soluções, por estar comprovada a eficiência térmica e energética. A pegada ecológica é supostamente menor, pois os materiais são na sua maioria locais e deste modo é reduzida a queima de combustíveis fósseis tanto para o fabrico como para o transporte.
Nos últimos anos têm surgido mais publicações e investigação no âmbito da arquitectura popular, o que permite o registo de testemunhos ou mesmo dos processos segundo os métodos tradicionais, despertando assim a curiosidade a um maior número de pessoas, o que certamente ajudará na salvaguarda de alguns exemplares existentes já com uma longa vida de utilização e que por ignorância poderiam estar condenados à demolição num processo de reabilitação do edifício.

Leitura recomendada:
Costa, Alexandre Miguel (2008),
“Adobes, tijolos e tabiques” in Materiais, sistemas e técnicas de construção tradicional: Contributo para o estudo da arquitectura vernácula da região oriental da Serra do Caldeirão, CCDRAlg/ Edições Afrontamento, s.l., pp. 74-77

Sítios web consultados:

Fonte da imagem:
















Segunda-feira, Março 12, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- O Grés Vermelho






Neste segundo artigo dedicado às soluções e técnicas tradicionais será abordada uma matéria-prima que ao longo dos milénios tem vindo a ser utilizada dada a sua disponibilidade, facilidade de utilização e expressividade cromática.
O arenito ou grés vermelho, também conhecido como grés de Silves, surge na paisagem como uma faixa que se “intromete” entre o calcário, predominante no barrocal, e os xistos característicos do território serrano algarvio, excepção feita à área de sienitos de Monchique. Não querendo enveredar por especificidades geomorfológicas por não ser entendido na matéria, busca-se aqui demonstrar a importância histórica e cultural desta rocha.
As comunidades pré-históricas no seu processo de sedentarização, decorrente do desenvolvimento da agricultura e dos povoados aperceberam-se do impacte visual que esta rocha causa, o que aliado à sua disponibilidade em determinadas áreas, fez com que estas adoptassem o grés de Silves como matéria-prima para os seus alinhamentos de menires, como ainda hoje é possível comprovar nos exemplares dos conjuntos de Gregórios/ Vilarinha ou Abrotiais ou mesmo na edificação de monumentos funerários, como é o caso da Anta da Pedreirinha, não muito longe da Amorosa.
A constante evolução técnica e tecnológica trouxe novas utilizações para a matéria-prima, mas antes temos que referir o interessante aproveitamento das superfícies dos afloramentos para a implantação de necrópoles durante o chamado período visigótico. É possível visitar estes monumentos em percurso marcado na área de Vale Fuzeiros, existindo também semelhantes vestígios, embora de acesso bem mais complicado, próximos da aldeia do Falacho.
A utilização na construção como elemento principal ou então misturado com outros componentes tem sido recorrente quase até aos dias de hoje, podemos ver a sua utilização nas alvenarias, misturada com as argamassas ou em edifícios em taipa ou adobe no embasamento onde assentam as paredes. A um nível mais monumental, mas não esquecendo a função estrutural temos exemplares bem interessantes da utilização do arenito vermelho, como os interiores de algumas igrejas, exemplos da Matriz de Messines, da capela-mor da ermida de Nossa Sra. Dos Mártires ou da cabeceira da Sé De Silves. Aqui nestes três exemplos o estrutural funde-se com os aspectos simbólico e decorativo, talvez se a matéria-prima escolhida fosse outra estes seriam menos emblemáticos.
Para fortalecer a estrutura foi sempre utilizado o aparelho de pedra aliado à taipa para conferir robustez às linhas de muralhas que guardavam Silves, de que hoje só resta a alcáçova, algumas torres e vestígios de muralha, certamente o mesmo se terá passado com outras fortificações no concelho hoje desaparecidas.
Na arquitectura civil e popular tem sido usado para além das utilizações já faladas na construção, mas também para cantarias, pavimentos e degraus. Em Alcantarilha, por exemplo, existem vãos de portas de casas do século XVI executados nesta rocha, ou a conhecida janela no Largo D. Jerónimo Osório em Silves, também da mesma época. Se caminharmos nas ruas mais antigas de encosta em Messines existem alguns exemplares de arquitectura popular, mesmo até do século XX, onde por uma questão de expressividade e certamente disponibilidade se optou pelo material local.
Até meados do século XX era também utilizado nas divisões de terreno para a edificação de valados e muros de contenção na maior parte das vezes sem qualquer tipo de argamassa, apenas sobrepondo as pedras entre si.
A exposição aos elementos naturais, como em qualquer rocha, causa erosão, mas no caso do arenito vermelho dada a sua composição, a rocha, começa a esboroar-se ficando seriamente afectada em poucos séculos. Se atentarmos nas laterais da escadaria da Matriz de Messines, de intervenção barroca (século XVIII) é já bastante notória a acção dos elementos. Esta característica traz preocupações acrescidas de conservação que não podem ser descuradas.
Antes de terminar há ainda que realçar o cariz utilitário desta matéria-prima que, para além da sua utilização na construção, deu origem a pedras de afiar e “rebolos” para uso doméstico e profissional.
Como se pode verificar o Grés de Silves é transversal a todos os períodos de ocupação humana deste território, o que certamente a torna um valor identitário e uma marca cultural que pode muito bem ser explorada. Do ponto de vista geológico ainda atrai a curiosidade de especialistas e interessados na disciplina. A coloração e textura causa também impacto no visitante, que geralmente, aprecia bastante as visitas aos monumentos e percursos arqueológicos dada a singularidade dos objectos visitados. Mais uma vez é um exemplo de um produto autóctone que pode potenciar o interesse cultural na região, e com isto trazer pessoas e receitas que bem são necessárias nos tempos que vivemos. Além da perspectiva financeira temos que pensar do ponto de vista da troca de experiências e saberes que este tipo de dinâmica provoca. A valorização e divulgação deste recurso, fazendo uso de uma identidade própria é também uma hipótese para se demarcar da restante oferta turística e cultural do Algarve. A diferenciação é importante na promoção e tendo nós a possibilidade de a realçar, só temos a ganhar se partilharmos com todos a existência deste bem que nos acompanha desde sempre.

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

Soluções e Técnicas Tradicionais- Os conjuntos de Eirado e Cisterna



 A captação e armazenamento de água para suprir as necessidades a nível de consumo e utilização agrícola desde cedo se tornou uma das preocupações primordiais das populações humanas. Em locais onde a profundidade dos lençóis ou a distância dos cursos de água são significativas tiveram que se criar alternativas para garantir a sua obtenção e fornecimento. Regiões onde por vezes a pluviosidade é irregular, como é o caso do Algarve, têm na água um recurso frequentemente escasso, logo as chuvas têm sido aproveitadas e armazenadas com recurso a cisternas cujas tipologias e formas de captação podem variar. Desde as águas canalizadas dos telhados e açoteias para a cisterna como para o foco deste artigo, os conjuntos de eirado e cisterna.
O eirado,  também denominado por eira de cisterna. Na obra Arquitectura Popular em Portugal surge assim descrito (…) “Se não é suficiente a água recolhida, recorre-se então ao eirado, que consta dum vasto terreiro, ao nível do terreno, revestido com ladrilhos e com declives para encaminhar a água das chuvas para um pequeno orifício, que comunica com o interior da cisterna, de onde será tirada por meio de uma boca semelhante à dos poços.
Os eirados são sempre protegidos por um murete relativamente baixo, e toda a sua superfície exterior é abundantemente caiada, como sucede geralmente nos terraços, a fim de quebrar a natural acidez das águas pluviais.”
(AAVV, 1988).  É de notar a grande polivalência desta solução que nos meses secos teria uma utilização diversa da que até aqui vimos. Era tapado o orifício de colheita de água, para evitar a entrada de impurezas, e serviria por exemplo para a separação dos cereais da palha e para a secagem, sobre esteiras, de frutos como os conhecidos figos e amêndoas.
A distribuição espacial destes conjuntos eirado/cisterna é mais abrangente que a sugerida pelos autores que fizeram o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa que veio dar origem à obra atrás citada, sendo conhecidos para além das freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines, Tunes e Porches, que os autores apontavam. Já foram identificados exemplares noutros locais entre eles no concelho de Albufeira e mesmo no concelho de Vila do Bispo, conhecendo-se neste último estrutura que  serviria de apoio a uma armação de pesca existente na área. A ideia que se trata de uma prática circunscrita a quintas do barrocal algarvio é assim substituída por outra que alarga a sua distribuição geográfica, ainda que de forma mais pontual, à orla costeira. Teresa Gamito na sua obra O Algarve e o Magreb refere-nos também o caso de Benagil, junto à costa (…) "onde as captações das águas pluviais se faziam não só através dos telhados como também de grandes eirados em encosta, escavados na rocha e que gozavam do mesmo tratamento de purificação e limpeza. (Gamito, 2007).
A cal assume como é notório um papel importante na construção, manutenção e limpeza destas estruturas, pois este material para além da produção de argamassas com bom efeito de estanquicidade e reguladora da acidez das águas. A frescura e purificação dependiam também desta matéria que oferece efeito desinfectante tendo uma cisterna para ser bem mantida que ser limpa e caiada pelo menos de dois em dois anos (idem). Testemunhos revelaram que era prática deitar cal viva ainda em pedra para o interior e deixar esta ferver e dissolver-se na água para purificar. Ainda a nível da construção era comum aproveitar-se a terra proveniente da escavação da cisterna para a taipa na edificação das casas.
Ainda pouco explorados do ponto de vista do interesse patrimonial e identitário os conjuntos de eirado e cisterna representam uma herança de séculos e durante muito tempo, anteriormente à generalização das redes de abastecimento de água, a única alternativa para garantir aquele líquido vital. A chegada das redes de canalização e esgotos aliadas ao declínio agrícola e consequente transição da população para os núcleos urbanos, depressa fizeram esquecer a importância destas estruturas. Os eirados conferem uma aparência distinta às propriedades onde se encontram e é normal encontrar alguns exemplares onde nos muretes eram moldados bancos para permitir o repouso naquela zona muitas vezes fronteira à casa. Além de embelezar era dada mais uma utilização ao espaço transformando-o uma zona de fresco. Do ponto de vista turístico e de investigação temos um objecto etnográfico de interesse que permaneceu praticamente imutável durante séculos e teve a sua utilização em pleno até há poucas décadas atrás.
Podemos afirmar que apesar da sua antiguidade os conjuntos de cisterna e eirado são ainda bastante actuais, pois com o aumento dos custos de fornecimento, assim como a irregularidade da pluviosidade e a já há muito anunciada escassez tornam esta solução ainda bastante viável para quem possui uma propriedade com este equipamento. Muitos estudos apontam que determinadas soluções ancestrais, sendo esta uma delas, devem fazer parte da arquitectura contemporânea de forma a torná-la mais sustentável e com uma identidade mais vincada.  Outro factor de actualidade é o retorno de muita gente aos campos que acaba por adquirir imóveis antigos e recuperá-los dando nova vida e utilizações aos eirados, salvaguardando e valorizando-os enquanto elemento que confere identidade e uma herança de gerações anteriores.
 
Obras consultadas:
AAVV (1988),
Arquitectura Popular em Portugal, Vol 3., 3ª edição, Lisboa, AAP.

Gamito, Teresa Júdice (2007),
O Algarve e o Magreb 711-1249, Faro, Universidade do Algarve pp. 74-75

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

A VI Volta ao Algarve em Automóvel- Algarve Rally 1976- Como era vista num jornal regional da época.


A Volta ao Algarve em Automóvel/ Rali do Algarve foi já anteriormente tema aqui neste blogue, desta vez regresso a esta prova na sua edição de 1976 por ter encontrado no periódico Correio do Sul de 28 de Outubro do mesmo ano a notícia a anunciar que começaria no Sábado dia 30 de Outubro pelas 9h em frente ao Casino de Vilamoura. Esta VI edição da Volta, já subtitulada Algarve Rally revestia-se de interesse por estar a ser seguida por observadores da Federação Internacional do Automóvel, vindos do Mónaco para monitorizar a prova tendo em vista a sua futura integração no campeonato Europeu de Ralis o que de facto aconteceu logo no ano seguinte. Ainda não contava para o calendário internacional, mas em 1976 já estavam inscritos alguns pilotos de outras nacionalidades que buscavam ganhar rodagem e desenvolver as suas máquinas aqui no Algarve, que foi ganhando estatuto pela exigência dos troços de terra. Contando para o Campeonato Nacional de Rallyes e para o Regional Promoção- Zona Norte e Sul e constando no Calendário Desportivo Internacional, como vimos desvinculado ainda de campeonato ou troféu, esta edição atraiu especialmente os pilotos nacionais que ao longo das 25 provas classificativas faziam pouco menos de 220 km, se somarmos as ligações e percursos não classificativos a quilometragem superava os 1000 km. O vencedor desta edição foi Mário Silva, navegado por José Nobre num Datsun 240Z, nesta mesma “Volta” despontou também um dos nomes maiores do automobilismo no Algarve, José Inverno Amaral que obteve um excelente 2º lugar também num Datsun, mas desta vez no modelo 1200. Regressando à notícia publicada no jornal dirigido por Mário Lyster Franco, na sua edição nº 2971 é destacada a inscrição até então recorde de 50 equipas concorrentes. A tecnologia da época era também tema de destaque na peça, assim como a mediatização da prova junto da imprensa, como (…)telefones, alguns ligados directamente às redacções de jornais (…), é também falada a utilização de meios informáticos, de circuitos internos de televisão e videotape entre outra tecnologia, isto tudo em meados dos anos 70, o que demonstra a aposta da direcção da prova na sua ascensão ao campeonato europeu. A cronometragem estava a cargo da reputada Omega, já recorrendo às células foto-eléctricas, o que segundo a mensagem veiculada pelo Gabinete de Imprensa e Relações Públicas do Algarve Rally, transmitida no Correio do Sul seria a (…) sólida garantia de que os tempos a fornecer aos computadores sairão correctos. A Força Aérea disponibilizou também um helicóptero para acompanhar a primeira etapa da prova.
A meteorologia para aquele fim de semana de corridas afigurava-se favorável e o bom tempo permitiu às equipas treinar e reconhecer o terreno sem dificuldades, mas vaticinava-se que se a situação se alterasse as coisas poderiam complicar bastante, especialmente nos troços da Torralta e Casais onde, neste último, poderia mesmo ter que ocorrer uma neutralização da prova.
Numa altura em que os país ainda recuperava de diversas convulsões, ainda se vivia com o cenário de crise petrolífera e o desporto automóvel não chegava tão facilmente à população como actualmente, quer por falta de estruturas como as hoje existentes, como o número bem mais reduzido de provas, a Volta ou Algarve Rally, era como aparece no Correio do Sul a grande Festa do Algarve em automóvel, que o Racal Clube sedeado em Silves proporcionava ao público que acorria aos troços.

Quarta-feira, Outubro 12, 2011

As Escolas Primárias Rurais- Os Planos de 1956 até 1961, a sua importância patrimonial.


Numa altura em que muito se fala de educação, colocações e encerramento de estabelecimentos escolares julgo pertinente abordar a temática das antigas escolas primárias rurais, a maioria delas de uma só sala, espalhadas um pouco por todo o lado. A génese desta rede prende-se com a dotação de estabelecimentos de ensino básico nos meios rurais do país, muitas vezes afastados dos centros urbanos, ou quando não muito, o suficiente para que se tornasse um entrave à alfabetização da população.
Estas escolas do Novo Plano dos Centenários são pela primeira vez propostas por despacho oriundo do Subsecretário de Estado das Obras Públicas a 30 de Março de 1955 que sugere o estudo de arquitectura e engenharia de forma a que a construção dos novos equipamentos seja mais económica, fácil e rápida. Em suma um projecto-tipo simplificado a nível de materiais e soluções como forma de dar resposta à necessidade de alargamento da rede escolar. A resposta a este despacho surge em Janeiro de 1956 com a apresentação ao Ministro das Obras Públicas de um estudo prévio, o Ante-projecto-tipo para edifícios de uma sala, feito pelos técnicos da Delegação para as Obras de Construção de Escolas Primárias (DOCEP), pertencente à DGEMN que trabalhava em estreita relação com o Ministério das Obras Públicas. Este Ante-projecto cujo principal mentor foi o arquitecto Fernando Peres visava simplificar todo o processo desde fachadas, vãos e blocos sanitários, normalizando ao máximo de forma a construir mais rápido, reduzir o custo por construção e os elementos arquitectónicos. A simplificação de soluções como, por exemplo, as coberturas tornaram a edificação destes equipamentos mais acessível e permitiu a obtenção de mão de obra não especializada, o que em termos financeiros seria proveitoso. O uso da pedra reduz-se ao essencial, soleiras de portas, peitos de janelas e degraus.
O projecto dividia-se em dois tipos, Urbano e Rural, sendo este último o que nos interessa. Todas as variantes do modelo com mais que uma sala partiram da matriz que foi este Ante-projecto de apenas uma sala, a forma básica, que se adequava aos dispersos núcleos habitacionais, que só nalgumas situações necessitava de ter mais valências.
O Tipo Rural resume-se ao essencial, o grande bloco para albergar a sala de aula de 8x6 metros, um pequeno vestíbulo aberto com acesso à sala e aos sanitários, um para o professor, outro para os alunos. Em favor da rapidez de construção e controlo de custos foi também proposta a possibilidade de usar esteiras de tijolo e vigas de betão em detrimento dos travejamentos de madeira, assim como a redução do número de águas dos telhados.
Apesar do princípio de contenção de custos dada a dimensão da rede escolar a terminar, buscavam-se soluções duradouras e de qualidade que garantissem a longevidade dos edifícios, daí muitos deles, ainda hoje existentes e algo descuidados, não apresentarem grande degradação estrutural. A fiscalização e medições por parte das experientes equipas da DGEMN, habituadas às numerosas intervenções certamente terão contribuído para estas características de longevidade destas construções.
Em Fevereiro do mesmo ano o Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Arantes de Oliveira, faz publicar um despacho que aprova a “orientação” dos estudos já feitos para os novos tipos, sendo estes efectivamente aprovados no mês seguinte a 13 de Março de 1956. Nesta aprovação é sugerida a colaboração entre entidades para o desenvolvimento e contínua melhoria, neste caso entre o DOCEP e o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil).
Conforme seria de esperar à medida que se construíam escolas iam surgindo novas questões e soluções, uma delas proveniente da Secção Sul do DOCEP. No projecto inicial apesar de coberto o vestíbulo era aberto à frente ficando assim muito exposto, daí ter-se optado por fechá-lo, o que importaria em Abril de 1958 mais 1358$20 à construção.
Em 1961, através da lei nº 2107 de 5 de Abril publicada no Diário do Governo é regulamentado um novo plano na senda do que já tínhamos visto nos projectos de 1956 que vai substituir “Na parte ainda por executar, o Plano dos Centenários (...)” Para este plano possuímos números e estavam previstas 254 escolas de uma sala para o Distrito de Faro, 92 estabelecimentos de duas salas e as de maiores dimensões, dadas as características da região iam decrescendo numericamente, mas no total perfaziam 359 novas escolas. 
As autarquias também passaram a ter parte mais activa nos processos, na conservação e manutenção. Há que referir também o aproveitamento do estado do Fundo de Desemprego, prática já com décadas para a obtenção de receitas e mão de obra acessível. Para termos uma ideia uma sala de aula em 1961 orçava em 68000$00 e o mobiliário e apetrechamento cerca de 10000$00
Com factores vários como o abandono dos campos, a melhoria das vias de comunicação, o decréscimo da natalidade, muitos destes equipamentos rurais passaram a não fazer grande sentido e começaram a encerrar pondo-se o problema habitual, o que fazer a estes edifícios? Felizmente vários têm sido entregues a associações ou entidades locais que apesar das dificuldades lá se esforçam por mantê-los, outros adquiridos por particulares, mas há sempre uma percentagem que fica na indefinição e o pior que pode acontecer a um edifício é ficar devoluto, pois o processo de degradação normalmente é acelerado.
   Estes espaços do imaginário popular onde muitos iniciaram os seus estudos são uma marca histórica de grande peso para a população em geral. Espaço de memórias e brincadeiras que deviam continuar a pontuar o nosso meio rural, a sua preservação e utilização impõe-se para que a salvaguarda seja garantida.

Quarta-feira, Setembro 07, 2011

Casa de Cantoneiros do Falacho- Muitas décadas caídas em esquecimento.


Ao circular pelas estradas mais antigas da região certamente já se deparou com algumas casas de cantoneiros, edifícios que de espaço a espaço acompanhavam o desenvolvimento da rede viária e albergavam as equipas de manutenção e famílias. Estes pequenos complexos além do pólo habitacional dos trabalhadores serviam também como área logística para armazenamento de ferramentas, materiais e alguma maquinaria.
Este tipo de edifícios era projectado de forma tipificada com apenas duas variantes para melhor se adaptar à realidade e necessidade dos locais e, claro está, o número de cantoneiros a destacar por cantão.

As comunicações terrestres no Algarve foram até há algumas décadas muito deficientes, tanto na ligação com o resto do país como a nível regional. Este facto é bastante referido no século XIX por visitantes e mesmo por locais cuja necessidade de se deslocarem era dificultada pelas condicionantes existentes.

Charles Bonnet na sua Memória sobre o Reino do Algarve tece as suas Considerações sobre os melhoramentos a fazer no Algarve e no capítulo dos transportes terrestres escreve, entre muitas outras críticas e sugestões, “Nesta província, existem na parte designada por Beira Mar caminhos passáveis no verão e até transitáveis às viaturas, porém durante a época das chuvas encontram-se intransponíveis. No restante território- e até mesmo no trajecto para a capital do reino ao qual não se deveria dar o pomposo nome de “estrada real” visto ser um simples caminho- o que existe são atalhos por vezes demasiados escabrosos e apenas transitáveis a cavalo.”. Este testemunho demonstra o estado e antiguidade dos “caminhos” que ligavam as povoações do Algarve, situação que levou muitas décadas a suprir, prolongando-se até bem dentro do século XX. O primeiro impulso de construção e melhoria da rede é ainda notado na segunda metade do século XIX e com ele surgem à semelhança do resto do país as primeiras casas de cantoneiros. O exemplar que vamos abordar é referido pela primeira vez no mapa de edifícios de 1889, onze anos mais tarde a casa de cantoneiros do Falacho na Estrada Real nº 77 surge numa planta assinada pelo chefe da 2ª Secção de Conservação do Distrito de Faro, José António Serpa. Segundo a autora da tese As casas dos cantoneiros do Algarve: da conservação das estradas a património a conservar, Maria Isabel S. Carneiro, esta é provavelmente a configuração original do edifício. No ano de 1926 o edifício encontrava-se desprovido de funções tendo sido pedida a sua cedência para a instalação da Escola Primária do Falacho, a conversão do edifício à nova utilização seria custeada pela autarquia silvense que também realojaria o cantoneiro e forneceria um local para armazenar as ferramentas. O pedido foi indeferido pela Administração-Geral das Estradas e Turismo que pretendia continuar a utilizar o complexo e até proceder a reparações no edifício.

Em 1927 é fundada a Junta Autónoma de Estradas e logo no mesmo ano ingressa neste organismo o Engenheiro Joaquim Barata Correia que veio a exercer uma forte influência no Algarve pela prolífera execução de projectos não só para a JAE, mas também em edifícios como o Hospital de Misericórdia de Loulé ou o Liceu de Faro. A importância de Barata Correia para o tecido viário do Algarve prende-se com a execução do projecto-tipo para as casas de cantoneiros, tal como as conhecemos hoje, a intervenção na Aldeia do Ameixial, o traçado da Estrada Nacional 2 entre Almodôvar e Faro, entre outros.

Voltando à casa de cantoneiros do Falacho procederam-se a arranjos em 1931, pois o estado do imóvel era já de alguma degradação e pretendia-se dar continuidade à sua utilização. Em 1937 dá-se a actualização do edifício já segundo o projecto-tipo de Barata Correia comum aos restantes edifício planeados para a região. Foi nesta altura que se acrescentou o frontão com a identificação do edifício.

Depois de traçado o breve historial do edifício até ele ter chegado ao aspecto que ainda hoje ostenta, ainda que muito degradado, não é de excluir que se procederam algumas modificações a nível funcional no interior que não alteraram o aspecto. Entre os finais do século XIX e meados do Século XX a vida deste edifício foi bastante dinâmica, entre o cumprimento da sua função, um breve período de indefinição, as renovações e arranjos e nunca esquecendo os trabalhadores que lá passaram fizeram da casa de cantoneiros do Falacho um sítio com muito que contar.

O estado actual de degradação é já elevado e urge intervir e atribuir funcionalidade ao imóvel de modo a evitar a sua perda. Como já havia indicado em artigo anterior e Maria Isabel S. Carneiro também sugere, a conversão em centro interpretativo seria uma solução e salvaguardaria um património que muitos desconhecemos, mas que foi imagem de muitas décadas nas nossas estradas, as casas de cantoneiros e os seus trabalhadores. É certo que numa altura como esta onde financiamentos e novos projectos culturais muitas vezes são relegados para um segundo plano, será difícil executar a revitalização do espaço, mas a sua perda é algo mais grave e que devia ser evitada.


Foto: Retirada do blogue Rua dos dias que voam: http://diasquevoam.blogspot.com

Sugestões de leitura:

BONNET, Charles; MESQUITA, José Carlos (estudo introd.); VIEGAS, Maria Armanda T. Ramalho (trad., actualiz. e notas) - Memória sobre o Reino do Algarve: descrição geográfica e geológica. Faro: Secretaria de Estado da Cultura, 1990. Tradução da ed. de Lisboa: Tip. da Academia Real das Ciências, 1850.

Carneiro, Maria Isabel S.
As casas dos cantoneiros do Algarve:
da conservação das estradas a património a conservar
, Tese de Mestrado em Estudos do Património apresentada à Universidade Aberta, Lisboa, 2011




Segunda-feira, Junho 20, 2011

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

 Ontem no âmbito do Dia da Cal em Cacela a Velha tomei conhecimento deste texto absolutamente visionário de Sophia que anteviu muito bem o rumo que o Algarve viria a tomar nas décadas seguintes. Temos que ter em conta que a data da sua publicação é 1963, mais concretamente em Janeiro desse ano no n.º 21 da “Távola Redonda”. Devo agradecer a Fernando Silva Grade pela sua divulgação e por me indicar onde o poderia encontrar. 
Ainda no âmbito da Cal, da sua cor, textura próprias e significado patrimonial recomendo a leitura de um texto de Fernando Silva Grade publicado ontem no blogue A Defesa de Faro.   
Por fim recomendo vivamente a experiência que a ADRIP Cacela, Caiar-te! e Domus Mater proporcionaram e que pelos vistos vai repetir-se. 




Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas.
Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham.
A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria.
Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece.
Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e-ai de nós!-para durar: Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras.
Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista – quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade
Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando ao antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas.
Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos.
A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e de cultura.
A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro.
Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.
A arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura.
Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem “arquitectura”, ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade.
Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país.
Mas é urgente evitar os seguintes perigos:

A incompetência
O saloísmo
As especulações com os terrenos
Os maus arquitectos
O falso tradicionalismo
A mania do luxo e da pompa
As obras de fachada

Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor: De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fonte: